Porto Alegre, quinta-feira, 17 de agosto de 2017
   

Deputado Raul Carrion - PCdoB-RS

A Escola Dos “Annales” e a "Nova" História

Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando,

mas ele vinha como se fosse o Novo.

Ele se arrastava em novas muletas, que ninguém antes havia visto,

e exalava novos odores de putrefação que ninguém antes havia cheirado.

 

 [...] E em torno estavam aqueles que instilavam horror e gritavam:

Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós!

E quem escutava, ouvia apenas os seus gritos, mas quem olhava, via tais que não gritavam.

 

Assim marchou o Velho, travestido de Novo,

mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho.

O Novo ia preso em ferros e coberto de trapos;

estes permitiam ver o vigor de seus membros.

BERTOLD BRECHT

                               Nos dias de hoje, reina absoluta na ciência histórica - no mundo acadêmico, na produção editorial, na mídia - a autodenominada Nouvelle Histoire, herdeira, segundo seus pregoeiros, dos Annales dos anos 30. Proclama-se o novo paradigma da história, síntese de tudo o que surgiu de novo na moderna ciência social, superação seja do historicismo positivista, seja do determinismo marxista! Negadora da existência de leis na história ou de quaisquer determinações  - mesmo que em última instância - questiona a própria objetividade do conhecimento histórico, a existência da verdade na história, a totalidade do real, o progresso, a evolução. Especialista na história do fragmento, das curiosidades, do que não muda, do não-essencial, do subjetivo, do irracional, jogou no depósito das velharias os modos de produção, a luta de classes, as revoluções:

“Eis a ‘história nova’ lançada como uma marca de sabão em pó! Quem permanece apegado a uma história historicista, unilinear e estreitamente fatual, irá proclamar-se da ‘nova escola’ a fim de tornar o seu produto mais vendável. Melhor, logo veremos historiadores dos mais empiristas se tornarem promotores entusiastas do refinamento estatístico; a elaboração das ferramentas conceituais é assim substituída pela aplicação de simples técnicas. O positivismo encontra aí uma oportunidade de sobreviver envergando um novo traje” (BOIS, In: LE GOFF: 1993, 244).

                        Qual a relação que guarda essa “Nova”  História com os Annales de Bloch e Febvre? Com os Annales de Braudel? O que haverá realmente de “Novo” na referida escola, “que tanto de novo estamos criando, que tanto estamos avançando (ou velhas idéias estão aparecendo como novas) e, por outro, que tanto velhas concepções têm escapado à crítica e conseguiram infiltrar-se, contrabandeando o velho para novas formas de pensar.”  (PETERSEN, V.3, N.1, 1992, p. 111)? É o que examinaremos a seguir.

Bloch, Febvre e a primeira  geração da Escola dos Annales

                        Analisar a escola dos Annales - que nos anos 70 irá dar origem à "Nova" História - exige levar em conta tanto a sua heterogeneidade e relativo ecletismo, como suas distintas fases. Há um primeiro período, entre 1929 e 1939, mais voltado para os aspectos “econômicos e sociais” da história - no que alguns pretenderam ver uma certa proximidade com o marxismo (“nem Febvre nem Bloch tinham grande interesse nas idéias de Marx.” [BURKE, 1992, p. 68]) - de crítica às correntes dominantes nas ciências sociais do Ocidente, seja ao positivismo, seja ao “teoricismo” idealista. É a época da revista Anais de História Econômica e Social, dirigida por Lucien Febvre e Marc Bloch. Este bastante influenciado por Durkheim, aquele por Jaurés e Michelet (BURKE, 1992, p. 25-26).

                        Seu “primeiro traço definidor [...] é de [...] rechaço do historicismo e de sua estéril erudição fatual [...] contra a tentativa de estabelecer a indagação do ‘fato histórico’ como objetivo supremo”  (In: FONTANA 1976, p.111.) Em lugar da história narração, descritiva, é reivindicada a história problema, explicativa. “O segundo traço marcante desses intelectuais dos anos 30 é a rejeição da política. O jogo político, a vida parlamentar, os partidos políticos são postos de lado por esses intelectuais. O Estado é suspeito e rejeitado”  (DOSSE, 1994, p. 24-25).

                        “Os Annales [...] ao desertar o terreno político [...] acaba por orientar o interesse dos historiadores para outros horizontes: a natureza, a paisagem, a população e a demografia, as trocas, os costumes” (DOSSE, 1994, p. 54).  O que seria apresentado como uma “história econômica e social”, como o abandono da história dos fatos isolados, dos grandes homens. Mas logo ficará demonstrado que isso não tinha nada de sólido. Não por acaso, já em 1939 a revista altera o seu nome para Anais de História Social e em 1941, na sua conferência “Viver a história”, na École Normale Supérieure, Bloch afirma:

“Sabemos muito bem que ‘social’, em particular, é um desses adjetivos a que se fizeram dizer muitas coisas no decorrer do tempo, a tal ponto que por fim já não quer dizer quase nada [...] Concordávamos em [...] uma palavra tão vaga quanto ‘social’ parecia ter sido criada [...] para servir de emblema a uma revista que pretendia não se rodear de muralhas [...] não há história econômica e social. Há a história pura e simplesmente em sua unidade.” (BLOCH Citado por Le GOFF, 1990, p.28).

                        E Febvre complementava, para não deixar qualquer dúvida de proximidade com o marxismo:

“Falando com propriedade, não há história econômica e social. E não somente porque a relação entre o econômico e o social não é privilegiada [...] no sentido de que não há razão alguma para dizer econômico e social em lugar de político e social, literário e social, religioso e social ou, inclusive, filosófico e social. Não foram razões racionais as que nos habituaram a relacionar de forma natural, e sem mais reflexões, os dois epítetos de econômico e social [...] esta fórmula não é outra coisa que um resíduo ou uma herança das longas discussões que suscitou, já há mais de um século, aquilo que chamamos o problema do materialismo histórico.” (FEBVRE Citado por  FONTANA, 1976, p.112)

                        Como nos esclarece Fontana:

“a qualificação de ‘econômica’, não foi outra coisa que uma concessão a uma moda passageira, a um curto galanteio com o materialismo histórico [...] No ano de 1941, Febvre opina que o trabalho do historiador consiste em relacionar aspectos da vida humana, sem que importe demasiado quais sejam os que se escolham. Nenhum deles tem um papel predominante [...] A história é ‘ciência [...] da harmonia que [...] se estabelece em todas as épocas entre as diversas condições sincrônicas espirituais.’ (Combats pour l’Histoire, p.31/32) Frase que em última instância significa que tudo está relacionado com tudo, mas que esquece de dizer-nos o fundamental: de que forma está relacionado.” (FONTANA, 1976, p. 113).

                        Um terceiro aspecto - talvez o mais fecundo dos Annales, e parte de sua estratégia para a conquista da hegemonia entre as ciências sociais - foi a busca da interdisciplinaridade, a sua abertura à colaboração com as demais ciências e disciplinas. O que redundou em uma grande renovação nos métodos e nas técnicas do historiador. A história aproximou-se da geografia, da estatística, da demografia, da lingüística, da psicanálise. Articulou-se com a sociologia, a arqueologia, a antropologia. Deu-se, também, uma abertura para outras fontes, além dos documentos escritos, como a tradição oral, os vestígios arqueológicos, a iconografia, etc. Não é demais notar que, neste terreno, os  Annales  seguiram o caminho já desbravado pelo marxismo:

“o marxismo representou muito cedo um papel fecundo nessa renovação metodológica. Na medida em que ele tende a uma história ‘global’ ou ‘total’, que deve apreender simultaneamente os diferentes aspectos da vida social (o econômico e o mental, o social e o político), ele tem desde suas origens a vocação de se abrir sem restrições às diferentes ciências humanas. Conferindo às classes sociais e à sua luta um papel decisivo, ele volta seu interesse mais para as estruturas do que para o acontecimento superficial, mais para o coletivo do que para o individual, mais para o cotidiano do que para o acidental. Quanto aos métodos quantitativos, será preciso lembrar que Marx já fazia largo uso deles?” (BOIS, 1993, p. 244.)

                        Mas esse avanço técnico e metodológico dos Annales careceu de uma correspondente renovação teórica. Para isso pesou a sua subestimação da teoria e a sua visão ambígua da história enquanto ciência: “Sem metodologia abstrata à moda alemã [...] As idéias de um historiador são extraídas da própria história”. (FEBVRE, 1956, p. 501) Enquanto Bloch falava da história como a “ciência dos homens no tempo” (BLOCH Citado por FONTANA, 1976, p. 111), Febvre nos dizia que a história era um “estudo cientificamente elaborado”, não uma ciência, e reduzia as leis históricas a “estas fórmulas comuns que formam séries agrupando fatos até então separados”. (FEBVRE Citado por FONTANA, 1976, p. 111) Concepção paupérrima de lei, que não capta o seu caráter de causalidade interna e necessária entre os fenômenos.

                        A ascensão do grupo da Escola dos Annales foi fulminante: “A conjunção da estratégia sólida de alianças com o ecumenismo epistemológico permite à escola dos Annales eliminar seus rivais”. Em 1933, Lucien Febvre entra no Collège de France. O Ministério de Educação Nacional confia-lhe o projeto de uma Enciclopédia Francesa, no qual será o secretário geral e o diretor, contando com 600 colaboradores científicos e 200 universitários, cuja publicação inicia em 1935 Em 1936, Marc Bloch assume a cátedra de professor de história econômica da Sorbonne.

                        A Segunda Guerra Mundial interrompe a ascensão institucional dos Annales. Com a queda da França, “A política anti-semita do regime de Vichy exigiu a retirada do judeu Bloch da direção da revista. Bloch esperava que a revista deixasse de ser publicada; prevaleceu, porém, a vontade de Febvre de continuar com a publicação.” (BURKE, 1992, p. 39) A revista troca de nome (1942): Miscelâneas de Historia Social. Em 1944, Marc Bloch, engajado na Resistência, é capturado e fuzilado pelos alemães. Em 1946, a revista altera mais uma vez o seu nome: Anais - Economias, Sociedades, Civilizações.

                        O pós-guerra consolida a vinculação dos Annales ao establishment universitário: “Tendo à direita o discurso historicista e à esquerda o discurso marxista, o grupo dos Annales oferece uma terceira via, ocupa uma posição central, ideal para sua estratégia de poder.” (DOSSE, 1994, p. 66) O positivismo e o “teoricismo” idealista mostram-se cada vez mais impotentes para contrapor-se ao marxismo, que crescia em prestígio. A historiografia burguesa precisava renovar-se urgentemente, incorporar preocupações econômicas e sociais, criar alternativas ao marxismo. E assim foi feito...

                        Febvre é convidado para reorganizar a École Pratique des Hautes Études, tornando-se em 1947 presidente de sua VI Seção - dedicada às ciências sociais - e diretor do Centro de Pesquisas Históricas. Em pouco tempo os Annales tornaram-se hegemônicos nos círculos oficiais:

“Os Annales começaram como uma revista de seita herética. [...] Depois da guerra, contudo, a revista transformou-se no órgão oficial de uma igreja ortodoxa. Sob a liderança de Febvre os revolucionários intelectuais souberam conquistar o establishment histórico francês. O herdeiro desse poder seria Fernand Braudel”. (BURKE, 1992, p. 43)

Braudel, ou a segunda geração da Escola dos Annales    

            Braudel, que já compunha o núcleo dirigente dos Annales desde meados dos anos 40, publica em 1949 sua obra La Méditerranée et le Monde Méditerranéen, onde “descobre” a existência de distintos níveis de temporalidade: a longa duração das relações do homem com o meio geográfico - “uma história quase imóvel, a do homem em suas relações com o meio que o cerca; uma história lenta no seu transcorrer e a transformar-se, feita com freqüência de retornos insistentes, de ciclos incessantemente recomeçados”. (BRAUDEL, 1978, p. 13-14); “Acima dessa história imóvel, uma história lentamente ritmada [...] uma história social, a dos grupos e grupamentos [...] as economias e os Estados, as sociedades e as civilizações” (BRAUDEL, 1978, p. 14); a curta duração dos acontecimentos - “história à dimensão não do homem, mas do indivíduo, a história ocorrencial”. (BRAUDEL, 1978, p. 14)

                        Em que pese o mérito de haver percebido que o tempo histórico não é absoluto nem homogêneo (algo descoberto por Marx um século antes), Braudel não conseguiu articular as diversas temporalidades, limitando-se a agregar suas “fatias” de acontecimentos de acordo com a sua maior ou menor lentidão:

 “Assim chegamos a uma decomposição da história em planos escalonados. Ou, se quisermos, à distinção no tempo da história, de um tempo geográfico, de um tempo social, de um tempo individual. Ou se preferimos ainda, à decomposição do homem num cortejo de personagens.” (BRAUDEL, 1978, p. 15)

                        A totalidade histórica foi reduzida a uma somatória dos distintos níveis do real, sem dominâncias ou determinações, sem causalidades: “não mais cremos na explicação da história por este ou aquele fator dominante”. (BRAUDEL, 1978, p. 22) Braudel não foi capaz de compreender que a alinearidade do tempo histórico não se expressa através de um esquema “por camadas” (senão, como compreender os “dias que valem por anos”, nos quais tanto as estruturas, como as conjunturas e os acontecimentos, se aceleram enormemente?). Mais, ainda, ignorou o que articula, em última instância, os tempos longos, médios e curtos: o modo de produção.

                        A visão braudeliana traz latente, também, o fatalismo e o determinismo geográfico: “uma história particularmente lenta das civilizações, nas suas profundezas abissais, nos seus traços estruturais e geográficos”. (BRAUDEL, 1978, p. 25) “Quando penso no indivíduo, sou sempre inclinado a vê-lo como prisioneiro de um destino sobre o qual pouco pode influir.” (BRAUDEL, Citado por BURKE, 1992, p. 53) “A parte da liberdade humana é muito fraca”. (BRAUDEL Citado por DOSSE, 1994, p. 105.) “Nada há a fazer diante do peso do passado a não ser tomar consciência disso”. (BRAUDEL Citado por DOSSE, 1994, p. 119) Na perspectiva da longa duração, toda ação humana é insignificante. Incapaz de perceber a dialética entre os tempos longos e os curtos, as circunstâncias e os acontecimentos, as leis históricas e a praxis humana, Braudel aproxima-se do “o homem está morto” do estruturalismo!

                               Para Braudel a hierarquia social é uma permanência, a sociedade é fatalmente desigual, todo impulso igualitário é vão: “Toda observação revela essa desigualdade visceral que é a lei contínua das sociedades”. (BRAUDEL, 1979, t.2, p.215) “As sociedades só são válidas quando são dirigidas por uma elite”. (BRAUDEL Citado por DOSSE, 1994, p. 121) “O estado, o capitalismo, a civilização, a sociedade existem desde sempre”. (BRAUDEL Citado por  DOSSE, 1994, p. 121) A sociedade se autoregula no plano das estruturas, o novo é recuperado pelo velho, toda ruptura histórica é fadada ao fracasso: “Tudo se arranja, se incorpora às ordens existentes”. (BRAUDEL, 1979, t.3, p.542) “A longa duração braudeliana e suas diversas variantes aqui aparecem claramente como são: uma leitura de nossa história que permite exorcizar todo risco de mudança”. (DOSSE, 1994, p. 122)

                        Ao aventurar-se na história econômica - A Dinâmica do Capitalismo - Braudel expõe suas debilidades no âmbito da teoria e cai em erros primários: localiza o capitalismo na esfera da troca, ao invés da produção, e chega ao absurdo de contrapor a economia de mercado ao capitalismo!

                               Em 1947, Braudel sucede Febvre na direção da revista. Em 1949, torna-se professor do Collège de France e passa a acumular com Febvre, a direção do Centro de Pesquisas Históricas da École de Hautes Études e a direção da revista. Com a morte de Febvre, em 1956, torna-se o seu sucessor na VI Seção da École.

                               É nesta fase “braudeliana” que temos a participação, na periferia dos Annales, de alguns historiadores de tendência ou orientação marxista, como Michel Vovelle, Maurice Agulhon, Guy Bois, Pierre Vilar e, destacadamente, Ernest Labrousse, ligado ao PS:

“Se Ernest Labrousse não ocupa na época uma posição central no dispositivo dos Annales, é porque localiza o aspecto político como horizonte de sua abordagem econômica e privilegia o estudo dos antagonismos de classe [...] muito próximo da historiografia marxista, à qual não adere, e se torna assim marginalizado.” (DOSSE, 1994, p. 73)

                        Resumindo essa primeira fase da Escola dos Annales (1ª e 2ª gerações), podemos dizer:

            - Apesar da crítica ao empirismo e da defesa da necessidade da teoria, na prática os Annales subestimaram a teoria e privilegiaram os métodos e técnicas de investigação. O resultado foi o ecletismo (“o movimento está unido apenas naquilo a que se opõe” [BURKE, 1992, p.10]), a superficialidade e a inconsistência teórica. Priorizou a síntese indutiva (cara aos empíricos), frente aos métodos apoiados na dedução.

            - Sua visão interdisciplinar descambou em muitos momentos para o tecnicismo estatístico, demográfico, quantitativista, obscurecendo uma visão global e integrada do todo social e tendendo à especialização.

            - Percebeu distintas temporalidades na história, mas não as articulou dialeticamente, nem percebeu o fluir descontínuo dessas temporalidades, justapondo-as um tanto mecanicamente. Ao privilegiar uma história naturalizada e a longa duração, e ao desprezar o acontecimento, aproximou-se do determinismo geográfico.

            - Sua reivindicação de uma história total evoluiu para uma visão de totalidade de mero somatório.

            - Cada vez mais a sua crítica à história puramente “política”, “biográfica” mostrou-se inconsistente. Diversos de seus historiadores passaram a dedicar-se - em seus trabalhos concretos - às obras biográficas, até que toda preocupação com a história “econômica e social” foi abandonada. Uma das conseqüências foi a ausência de qualquer teoria da “mudança social”.

                        Em que pese todas as suas deficiências, a Escola dos Annales jogou um papel importante na renovação dos métodos históricos e combateu o positivismo e o teoricismo idealista na História. Mas a sua principal função foi ser um contraponto ao marxismo.

A terceira (ou quarta?) geração dos Annales, ou a  Nouvelle Histoire

                        A "Nova" História propriamente dita, desenvolve-se fundamentalmente a partir dos anos 70, quando Braudel, Morazé e Friedmann cedem a direção dos Annales a uma nova equipe, formada por Le Goff, Le Roy Ladurie, Revel, Marc Ferro e Burguière. Conservam-se muitas características da antiga Escola dos Annales, mas também observam-se pontos de ruptura importantes, sob a bandeira das novas abordagens, novos objetos, novos problemas:

“Em 1974 [...] já se prenunciavam as orientações de uma história nova - la nouvelle histoire - de múltiplas facetas, hoje predominantes nas salas de aula e nas listas editoriais. [...] A História Política, praticamente descartada pelo movimento historiográfico renovador dos anos 30 e 40, do tão conhecido grupo dos Annales, historiografia essa que se apregoava econômica, demográfica, eminentemente agrária, voltada para as análises estruturais e regionais, também não parecia reencontrar um lugar que lhe fosse próprio, com o destaque que merecia, na Nova História. Tratava-se e trata-se de uma história que passara a favorecer pequenos pedaços do passado, aspectos de um cotidiano nem sempre relevante, embora curioso, por vezes original e até mesmo ponderável.” (LINHARES In RÉMOND, v.7, n. 13, 1994, p. 8)

A viragem antropológica

                               Uma primeira grande característica da "Nova" História está no que se convencionou chamar de viragem antropológica, uma mudança em direção à antropologia cultural ou simbólica, a incorporação de suas abordagens, de muitos dos seus conceitos e técnicas:

“No momento, o modelo antropológico reina supremo nas abordagens culturais. Rituais, inversões carnavalescas e ritos de passagem estão sendo encontrados em todos os países e em quase todos os séculos. O estudo quantitativo das mentalités enquanto “terceiro nível” da experiência social nunca teve tantos seguidores”. (HUNT, 1992, p.14)

                        A partir daí, abriram-se novas abordagens como a micro-história, a história do cotidiano, a história vista de baixo, a história regional (“Uma história mais sensível às diferenças regionais do que às diferenças sociais” [ARIÈS, 1993, p.170]), etc. Dá-se um deslocamento da “história das sociedades” para a “história dos pequenos grupos” (as “tribos”), para uma história dos diferentes, dos marginalizados, dos fracos, dos vencidos. Ao invés da realidade social, das condições reais de existência, valoriza-se o seu avesso: os sonhos, o imaginário, o simbólico. Privilegia-se o periférico em relação ao central:

“O reprimido torna-se portador de sentido. Tudo se torna objeto de curiosidade para o historiador, que desloca seu olhar para as margens, para o avesso dos valores estabelecidos, para os loucos, para as feiticeiras, para os transgressores... O horizonte do historiador fecha-se sobre um presente imóvel, não há mais futuro [...] A "Nova" História se esconde, então, na busca das tradições, ao valorizar o tempo que se repete, as voltas e reviravoltas dos indivíduos [...] essa pesquisa faz-se mais pessoal e mais local. Abandona-se os tempos fortes e os movimentos voluntaristas de mudança, em direção à memória do cotidiano das pessoas simples.” (DOSSE, 1994, p.168)

                        O indivíduo passa a ser o centro da ação; o cenário, o palco passam a um segundo plano. Proliferam os estudos biográficos:

“O objetivo da história, portanto, não são, ou não são mais, as estruturas e os mecanismos que regulam [...] as relações sociais, e sim as racionalidades e as estratégias acionadas pelas comunidades, as parentelas, as famílias, os indivíduos. [...] a biografia constitui nesse sentido o lugar ideal para se verificar o caráter intersticial [...] da liberdade de que as pessoas dispõem”. (CHARTIER, v. 7, n. 13, 1994, p. 102)

A história quase imóvel, das permanências

                        A diacronia cede espaço para a sincronia. Deixa-se de trabalhar a tridimensionalidade do tempo - o passado, o presente e o futuro. Privilegia-se a permanência ao invés do movimento. Congela-se o passado idealizado, já que quando o presente frustra, o passado conforta... Perde-se a dimensão de construção do futuro, ao qual se teme, e cultua-se o pessimismo.

“talvez estejamos assistindo [...] ao fim da religião do progresso, da crença no progresso [...] existe uma relação entre a nova reticência dos anos 1960 em relação ao desenvolvimento, ao progresso, à modernidade, e a paixão trazida pelos jovens historiadores ao estudo das sociedades pré-industriais e de sua mentalidade. Estes não atribuem mais à história um sentido”. (ARIÈS, 1993, p. 162.)

“A cultura que estudam é, então, quase tirada fora da história e apreciada da maneira como os etnólogos estruturalistas consideram a sociedade que escolheram [...] O historiador isola um bloco de passado, do mesmo modo que um etnólogo escolhe uma sociedade selvagem, e estuda-a, evitando na medida do possível os problemas de origem e de posteridade. É a etno-história”. (ARIÈS, 1993, p. 174.)

                        O significado do acontecimento transforma-se, de expressão das causalidades que o tornaram possível, de revelador das estruturas subjacentes, em insignificante casual:

“A abordagem etnológica elimina a irrupção do acontecimento em troca da permanência, da cronologia repetida do gesto cotidiano da humanidade, cujas pulsações são reduzidas às manifestações biológicas ou familiares de sua existência: o nascimento, o batismo, o casamento, a morte. O historiador dos Annales torna-se o especialista do tempo imóvel em um presente congelado, petrificado de pavor diante de um futuro incerto.” (DOSSE, 1994, p. 169.)

“Vê-se aonde isso tudo leva [...] primeiro à história, dessa vez, totalmente imóvel; em seguida, ao questionamento da noção de mudança e de mutação brusca na história; numa palavra, da idéia da revolução [...] o questionamento não apenas do acontecimento puro e simples, mas de toda mudança brusca, de toda ‘mutação’ a quente”. (VOVELLE In: Le GOFF, 1993, p. 82-84.)

                        E, quando a mudança é impossível de ser negada, torna-se “uma historiografia [...] da dialética entre o tempo das massas populares - imóvel ou quase - e o das ‘elites’: agitado, mutável, criador [...] da história que se move [...] para uns (F.Furet, D.Richet), a mobilidade do tempo das elites; para outros (E.Le Roy Ladurie), as imobilidades da história etnográfica.”  (VOVELLE In: Le GOFF, 1993, p. 81.)

 A “descoberta” do cotidiano

                        Para alguns neo-historiadores “A vida cotidiana [...] está [...] no ‘centro’ do acontecer histórico; é a verdadeira ‘essência’ da substância social” (HELER, 1992, p. 20). Peter Burke afirma que “outrora rejeitada como trivial, a história da vida cotidiana é encarada agora, por alguns historiadores, como a única história verdadeira, o centro a que tudo o mais deve ser relacionado.” (BURKE, 1992, p. 10.)

                        Os neófitos também têm a pretensão de serem os “descobridores” do “cotidiano”! A realidade é que nem a expressão, nem o tema são, em si, novidades. Aliás, La vie quotidienne era o título de uma série lançada pelos editores franceses Hachette já nos anos 30. E em “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra” - editada em 1845 - Engels não só analisa o desenvolvimento do capitalismo e as conseqüências da industrialização, como faz um estudo detalhado e contextualizado sobre a vida e a luta cotidiana dos operários ingleses.

                        Sem dúvida, o estudo do cotidiano pode prestar importantes serviços ao historiador. Mas, para isso, é necessário o emprego de uma teoria que parta da compreensão de que a vida cotidiana esta condicionada pela formação social em que se dá e pela estrutura e pela dominação de classes existente. Que perceba que em uma mesma formação social coexistem várias cotidianidades, conforme as classes e os grupos sociais ou étnicos presentes. Que uma delas - a imposta pela ideologia da classe dominante - é a preponderante. Que os setores explorados e oprimidos estão condicionados, em sua existência diária, pela maneira de ser das classes dominantes que procuram, por todos meios, regulamentar a cotidianidade através das convenções e dos costumes sociais, da educação, dos códigos civis, dos meios de comunicação. (VITALE, 1992, p. 303-305.)

                        Uma visão teórica capaz de analisar dialeticamente - nas suas recíprocas influências - este “diário viver” que desborda a economia e a política, mas tem incidência sobre elas e, ao mesmo tempo, sofre a sua influência. Que exorcize o empirismo, o estudo dos detalhes de como eram “as carruagens”, “as vestimentas”, “os penteados”, de determinada época... Pois não se trata de fazer uma história por separado dos distintos aspectos da cotidianidade, mas de analisá-la globalmente, de identificar o seu papel na manutenção do status quo ou na mudança social.

                        Que compreenda que - exatamente porque compõe a dimensão do “dia a dia” , do senso comum, do inconsciente (ou subconsciente) , do pragmático, do repetitivo, do rotineiro, do habitual, do tradicional - o cotidiano,

“de todas as esferas da realidade, é aquela que mais se presta à alienação. [...] A assimilação espontânea das normas consuetudinárias dominantes pode converter-se por si mesma em conformismo [...] Quanto maior for a alienação produzida pela estrutura econômica de uma dada sociedade, tanto mais a vida cotidiana irradiará sua própria alienação para as demais esferas [...] o moderno desenvolvimento capitalista exacerbou ao extremo essa contradição.” (HELER, 1992, p. 37-39.)

                               Infelizmente, o que prevalece na maioria dos neo-historiadores do cotidiano é a visão fragmentária, a-histórica, desligada da realidade social, centrada nos indivíduos, imóvel: “difícil de descrever ou analisar é a relação entre as estruturas do cotidiano e a mudança. Visto do seu interior, o cotidiano parece eterno.” (BURKE, 1992, p. 24.) Assim, a história sobre o cotidiano - que poderia lançar “uma luz particular sobre uma realidade global” (LEFEBVRE, 1980, p. 33-34.) - tornou-se, sob a lógica da “Nova” Historia:

“escassa reflexão teórica dos estudos sobre a vida cotidiana, geralmente descritivos [...] caráter fortemente empírico dos estudos sobre o cotidiano [...] em geral centrados no sujeito e sua ação, nos fenômenos minúsculos, nas dimensões simbólicas do mítico, do imaginário, do irracional [...] as análises micro-orientadas, acabam por tornar-se micro-centradas, desconhecendo o contraponto das condições estruturais, e o objetivismo estrito cede lugar a um subjetivismo que não se reconhece como tal”. (PETERSEN, v. 3, n. 1, 1992, p. 1-2.)

O “determinismo” cultural

                        A “menina dos olhos” da "Nova" História é a chamada "Nova" História Cultural, saudada “aos quatro ventos” como uma verdadeira libertação frente ao materialismo e ao determinismo, o reconhecimento, enfim, do livre arbítrio humano:

“Nos anos 50 e 60, os historiadores econômicos e sociais foram atraídos por modelos mais ou menos deterministas de explicação histórica [...] Hoje em dia [...] os modelos mais atraentes são aqueles que enfatizam a liberdade de escolha das pessoas comuns [...] os novos historiadores [...] foram muito bem sucedidos ao revelar as inadequações das explicações materialistas e deterministas tradicionais do comportamento individual e coletivo de curto prazo, e na demonstração de que tanto na vida cotidiana, quanto nos momentos de crise, o que conta é a cultura.” (BURKE, 1992, p. 20-23.)

                        A "Nova" História Cultural “explode” na França a partir da década de 70, nela destacando-se nomes como Duby, Le Goff e o marxista Michel Vovelle. Sua proclamada preocupação são as questões culturais: “No correr dos anos 60 e 70, porém, uma importante mudança de interesses ocorreu. O itinerário intelectual [...] transferiu-se da base econômica para a ‘superestrutura’ cultural, do ‘porão ao sótão’.” (BURKE, 1991, p. 81.) Seus autores irão preocupar-se com as diferentes práticas e representações simbólicas (rituais, festas, folguedos), aproximando-se da antropologia, da lingüística, da etnografia, do folclore.

                        Mantendo a tradição dos Annales, a "Nova" História Cultural adota a mais ampla diversidade de métodos, conceitos e temas, agregando as mais variadas tendências teóricas. Estratégia eclética que favorece o seu poder de aglutinação. Convivem, lado a lado, autores preocupados com uma visão macroscópica e global do social e autores voltados para uma perspectiva microscópica e fragmentária do real. Autores que enfatizam a ligação da cultura com os aspectos sócio-econômicos da realidade - a chamada História Sócio-Cultural - e autores que consideram que as idéias determinam a história Mas, a sua vertente hegemônica têm por norte a concepção idealista de que as estruturas culturais - mentalidades, representações, imaginário - determinam a sociedade:

“A obra de Davis [...] complementa a abordagem francesa por utilizar, maciçamente, a antropologia simbólica e enfatizar o papel determinante e fundamental dos fatores culturais, em detrimento dos fatores climáticos, geográficos ou sócio-econômicos. [...] uma mesma idéia central - o papel decisivo da cultura como força motivadora da transformação histórica. [...] um método que enfatiza os elementos culturais sobre os de natureza sócio-econômica.” (DESAN In HUNT, 1992, p. 65-69.)

                        O foco de seus estudos serão as permanências  - em uma perspectiva de longa duração - o resgate dos fenômenos que persistem nas sociedades. Por isso mesmo, predominam as obras voltadas para o passado distante, especialmente medieval: “A história das mentalidades é, portanto, muito mais a história das mentalidades de outrora, das mentalidades não atuais.” (ARIÈS, 1993, p. 172.)

                        Preocupam-se mais com o que é imóvel, com os arquétipos que persistem na longuíssima duração (morte, medo, etc), do que com as mudanças. Também aqui expressa-se a tendência da "Nova" História de voltar-se para o passado: “Antigo Regime [...] em vez de explicar como ele ruiu ou como preparava o futuro, hoje os historiadores tentam compreender como ele se manteve, se reproduziu e ainda sobrevive nos poros da sociedade atual.” (BURGUIÈRE In Le GOFF, 1993, p. 149.)

                        Também caracteriza a "Nova" História Cultural a indefinição e a ambigüidade de seus conceitos chaves - mentalidades, imaginário, representações, cultura - muitos dos quais retirados de outras disciplinas (antropologia, psicanálise, semiologia, lingüística) sem suficiente tratamento teórico e crítico:

“Todavia, o novo paradigma também tem seus problemas: problemas de definição, problemas de método, problemas de explicação [...] se a cultura popular é a cultura do “povo”, quem é o povo? [...] Uma noção ampla de cultura é central à "Nova" História [...] Contudo, se utilizamos o termo em um sentido amplo [...] o que não deve ser considerado como cultura?” (BURKE, 1992, p. 20-23.)

                        Essa “extrapolação” de conceitos de outras ciências envolve muitos riscos. Um exemplo, é o uso dos conceitos da psicanálise - apropriados para fenômenos individuais - na explicação dos fenômenos coletivos. Outro, é a análise anacrônica dos sentimentos do passado sob um enfoque contemporâneo. Para Georges Duby, a solução está em sentir-se como no passado...

                        As concepções hegemônicas na "Nova" História Cultural não conseguem disfarçar que, em nome da luta contra os determinismos na história, de fato defendem a completa preponderância dos aspectos culturais sobre os aspectos sócio-econômicos na explicação histórica:

[para] “os historiadores franceses da terceira geração dos Annales [...] o clima, a biologia e a demografia dominavam a longa duração juntamente com as tendências econômicas; as relações sociais, mais nitidamente sujeitas às flutuações da “conjoncture” [...] constituíam uma segunda ordem de realidade histórica; e a vida política, cultural e intelectual configuravam um terceiro nível, extremamente dependente, de experiência histórica. A interação entre o primeiro e o segundo nível assumia a primazia. [...] À medida que a quarta geração [...] passou a preocupar-se cada vez mais com as [...] mentalités, a história econômica e social sofreu um recuo [...] Os historiadores da quarta geração dos Annales [...] rejeitam a caracterização de mentalités como parte do chamado terceiro nível da experiência histórica. Para eles, o terceiro nível não é de modo algum um nível, mas um determinante básico da realidade histórica. Como afirmou Chartier, ‘a relação assim estabelecida não é de dependência das estruturas mentais quanto a suas determinações materiais. As próprias representações do mundo social são os componentes da realidade social’. As relações econômicas e sociais não são anteriores às culturais, nem as determinam”. (HUNT, 1992, p. 8-9).

                        O trecho citado nos permite uma análise bastante rica. Em primeiro lugar, desmente aqueles que queriam ver na anterior primazia do econômico e do social uma influência marxista, deixando clara a compreensão esquemática e “economicista” da escola dos Annales quanto a essa questão. A ponto de dissociar em dois níveis diferentes o econômico e o social! O que nada tem a ver com a visão marxista dos “modos de produção”, unidade indissolúvel entre o econômico e o social. Em segundo lugar, coloca em um distante segundo plano qualquer preocupação com a base econômica e social da realidade, e erige as estruturas mentais (mentalidades, imaginário, representações) como determinantes básicos da realidade histórica. Chegando ao ponto de declarar que as próprias representações do mundo social são os componentes da realidade social !

                        Essa é a visão hoje dominante na "Nova" História. Georges Duby, um dos seus mais prestigiados representantes, afirma: “uma sociedade não se explica unicamente pelo material, mas nela intervém de uma forma igualmente determinante, e por vezes até mais determinante, fatores que relevam do mental, da idéia, da representação ideológica. [...] aquilo que as pessoas têm no espírito e que determina o seu comportamento.” (DUBY, 1986, p. 9). Como costuma acontecer, a crítica ao chamado determinismo econômico encobre a defesa de outros determinismos, de caráter idealista:

“A valorização do nível cultural [...] teve por base uma autonomia desse último em relação às outras instâncias do real, a tal ponto que esse nível é considerado como tendo temporalidade e dinâmica interna próprias, independente do resto da formação social. O nível cultural teria mesmo a tendência de criar o social. O deslocamento do discurso dos Annales não se limita, portanto, à ampliação do social para o cultural, mas se traduz pela substituição de um pelo outro [...] A nova dialética dos Annales opõe o tempo, a cultura popular, imutável, incapaz de se desligar de seus hábitos, tempo repetitivo, etnográfico, ao tempo criador dinâmico, da cultura das elites, fonte de inovação, portanto fonte de história. A capacidade de mudança não se encontra mais no campo social ou no político, mas no cultural”. (DOSSE, 1994, p. 176.)

                        No que diz respeito a “novidade” de uma abordagem cultural da história, penso que esta também é uma pretensão descabida dos “noviços”. Na verdade, desde que escreve História, o homem se preocupou com as questões que dizem respeito à cultura e às idéias morais, religiosas, jurídicas, filosóficas, artísticas das distintas sociedades. Para só ficarmos no campo do marxismo - presunçosamente acusado de ignorar o papel da cultura e das idéias na história - lembraremos, já no século passado, os inúmeros trabalhos de Marx, Engels, Plekhanov, sobre a Filosofia, a Religião, a Arte, a Literatura, (A Ideologia Alemã, A Questão Judaica, O Cristianismo Primitivo, Anti-Dühring, A Arte e a Vida Social); a frutífera polêmica em torno da arte, travada nos anos 1935/40, entre intelectuais marxistas do porte de Lukács, Ernst Bloch, Brecht, Benjamin. Além de que, em inúmeras ocasiões, Marx e Engels chamaram a atenção para o importante papel desempenhado pelas superestruturas ideológicas na história, e para sua autonomia relativa.

                        Nesse sentido, uma História Cultural científica tem muito a contribuir para uma melhor compreensão dos fenômenos ideológicos e culturais, muitas vezes descurados por historiadores, marxistas ou não, mais preocupados com outros aspectos do social. Ou com uma visão “economicista” e “mecanicista” da história, por isso mesmo redutora.

A história “em migalhas”, serial

                        Outra marca da "Nova" História é a sua fragmentação. Em vez da história temos as histórias. No lugar da história do real busca-se a história de tal ou qual fragmento do real: “Devemos renunciar à história global, à ambição de Febvre”. (CERTEAU Citado por DOSSE, 1994, p. 182.) “É essa noção de história total que me parece problemática hoje [...] vivemos uma história em migalhas, eclética, ampliada em direção às curiosidades, às quais não precisamos nos recusar”. (NORA Citado por DOSSE, 1994, p. 182.) Assim, “os objetos de investigação aparecem como que isolados dos complexos mais amplos onde se realizam, onde a idéia de totalidade é substituída pela de fragmentação, ruptura”. (PETERSEN, v. 3, n. 1, 1992, p. 118.)

                        Proclamada a inexistência da totalidade do real, esse é recortado em séries que evoluem independentemente umas das outras, cada uma com o seu próprio ritmo, cada uma com sua causalidade específica:

“a história serial descreve continuidades no modo de ser do descontínuo [...] ela decompõe, por definição, toda a definição prévia de uma história ‘global’, pondo em questão precisamente o postulado de uma evolução considerada homogênea e idêntica, de todos os elementos de uma sociedade [...] atomiza a realidade histórica em fragmentos tão distintos que compromete, ao mesmo tempo, a pretensão clássica da história à apreensão do global.” (In FURET, 1977, p. 72-73.)

                        Doravante, nenhum acontecimento pode ser definido sem antes situar a série da qual fará parte. Só ali adquire o seu significado. “Em lugar da continuidade da evolução histórica, os historiadores atuais interessam-se pelas descontinuidades entre séries parciais de fragmentos de história. À universalidade do discurso histórico, opõem a multiplicação de objetos em sua singularidade”. (DOSSE, 1994, p. 187.) “A história serial [...] apaga as estruturas sob a série fatual e [...] não resolve o problema da passagem de uma série a outra. Contenta-se com causalidades específicas de tal ou qual série.” (DOSSE, 1994, p. 194.)

                        Há uma explosão dos novos temas: a infância, o sonho, o corpo, o odor, a morte, o amor, a sexualidade, o medo, a culpa, o livro, o vestuário, o casamento, a loucura, o crime, o clima, a sujeira, a limpeza, os gestos, a fala, o silêncio, a leitura, a raiva, a ansiedade, a doença, etc. Por um lado, amplia-se enormemente o campo do historiador, e alguns destes estudos podem trazer certas contribuições para uma melhor visão do todo. Mas, por outro, tende-se à atomização do real, à perda de referência à totalidade, ao deslocamento do interesse para temas inócuos e politicamente desmobilizadores:

“A sociedade torna-se um fantástico caleidoscópio de micro objetos, sem sentido, sem hierarquia causal, sem razão. Na ausência de um sentido para a história, a preocupação com o futuro desaparece: é o fim da história e o objeto das práticas políticas se define a partir do cotidiano de cada um.” (PETERSEN, v. 3, n. 1, 1992, p. 124.)

O pretenso “retorno à política”

                            Outra inovação da "Nova" História é o propalado retorno à política, que fora abandonada pelos Annales em nome do combate à história fatual. Como nos mostra Burke, esse retorno a política é na verdade uma reação contra uma história que - mesmo que de forma tênue - ainda levava em conta os fatores estruturais de caráter social e econômico: “O retorno à política na terceira geração é uma reação contra Braudel e também contra outras formas de determinismo (especialmente o economismo marxista)”. (BURKE, 1992, p. 103.) Como nos explica Le Goff: “História do político que seja uma história do poder sob todos os seus aspectos, nem todos políticos, uma história que inclua notadamente o simbólico e o imaginário.” (Le GOFF,1993, p. 8.)

                        Na verdade, influenciado por Foucault, esse retorno à política restringiu-se em grande parte à micropolítica, à luta pelo micro-poder na escola, na fábrica, na família:

“Se não houver lugar nodal do poder, não pode haver lugar de resistência a esse poder. Onipresente, ele não pode mais ser derrubado, está em nós; tudo é poder [...] Essa diluição-dissolução do aspecto político é o traço de uma repulsa diante desse monstro moderno do estado, fonte de opressão e de mal. Na falta da capacidade para abatê-lo, ele é contornado.” (DOSSE, 1994, p. 227.)

O “retorno à narrativa” e a negação do caráter científico da história

                        Por fim, temos o chamado retorno à narrativa, outrora tão criticada pelos Annales. A historiografia desloca-se do objeto real para o narrativo, o literário. O valor não está tanto no conteúdo quanto no estético. Se de um lado isso poderia ter um aspecto positivo - a preocupação com a forma - na prática tem levado a um abandono do caráter científico da História. Ao invés de conhecimento do real a História transforma-se em criação, invenção do historiador:

“o discurso histórico é menos a combinação de uma imagem ou modelo com alguma ‘realidade’ extrínseca do que a feitura de uma imagem verbal [...] o discurso histórico não deveria ser considerado [...] como [...] esforços para conhecer a realidade ou descrevê-la, mas antes como um tipo especial de uso da linguagem [...] não existe um estória ‘real’. As estórias são contadas ou escritas, não encontradas [...] Todas as histórias são ficções.”  (WHITE, v. 7, n. 13, 1994, p. 28-30.)

                        No fundo, o que está em questão é a própria cientificidade e racionalidade do trabalho do historiador: “Tem havido uma relutância em considerar as narrativas históricas como elas mais manifestamente são: ficções verbais, cujos conteúdos são tão inventados como descobertos, e cujas formas têm mais em comum com suas contrapartidas na literatura do que na ciência.” (CHARTIER, v. 7, n. 13, 1994, p. 110.)

                        Daí para a negação da existência de causalidades na história, de seu caráter científico e objetivo, vai um passo. Passo que é dado por Paul Veyne:

“A história não é uma ciência e não tem muito a esperar das ciências; não explica e não tem método [...] a história não explica, no sentido em que não pode deduzir e prever [...] O problema da causalidade em história é uma sobrevivência da era paleo-epistemológica [...] O historiador não encadeia as causas cujo concurso produziria o efeito: desenvolve uma narrativa cujos episódios se sucedem [...] No mundo tal como os nossos olhos o vêem, os homens são livres e reina o acaso [...] a história é uma atividade intelectual que, através de formas literárias consagradas, serve fins de simples curiosidade [...] Entre a explicação histórica e a explicação científica, não existe um cambiante, mas um abismo [...] a história não é um ‘esboço de explicação’ científica ainda imperfeita [...] não se transformará nunca numa ciência.” (VEYNE, 1987, 9, p. 110-112, 191.)

                        E que Georges Duby complementa, para que não pairem dúvidas:

“Para que serve a história? A história é, antes de mais, um divertimento: o historiador sempre escreveu por prazer e para dar prazer aos outros.[...] O que ele enuncia, quando escreve a história é o seu próprio sonho [...] O historiador conta uma história, uma história que ele forja recorrendo a um certo número de informações concretas. [...] continuamos a utilizar este material [...] ao serviço das nossas paixões e da ideologia que nos domina [...] o discurso histórico continua a ser uma forma de criação [...] a elaboração do material é sempre feita de uma forma subjetiva. [...] a objetividade do conhecimento histórico é um mito. [...] jamais chegaremos a uma verdade objetiva.[...] sou céptico em relação à objetividade [...] toda a informação é subjetiva”. (DUBY, 1986, p. 11-14.)

                        Para ambos vale a crítica de Mário Maestri:

“A obra de Paul Veyne, Como se escreve a História, constitui bom exemplo da miséria metodológica e do uso sistemático das grandes propostas irracionalistas. Para o autor, a História não é uma ciência mas uma espécie de gênero literário que se distingue da ficção por ser escrita a partir de uma documentação histórica. Sua reflexão sobre o devir histórico assenta-se sobre o tradicional recurso irracionalista-burguês de dividir a natureza em fenômenos materiais que desvelam suas leis e podem ser conhecidos e fenômenos sociais ‘singulares’ estranhos a qualquer ‘regularidade’.” (MAESTRI In ANAIS, 1991, p. 131.)

Continuidades e rupturas da "Nova" História com a Escola dos Annales

            - A Nova História continua apresentando a mesma indigência teórica que já caracterizava os Annales, disfarçada pela absorção acrítica de conceitos e terminologias mal assimiladas, tomadas de empréstimo a outros campos científicos. Chafurdando no ecletismo teórico...

            - Manteve a interdisciplinaridade tão proclamada pelo Annales, que muitas vezes confunde-se com uma especialização tecnicista.

            - Mantendo a pluralidade de tempos braudeliana, sua temporalidade sincrônica tende para a longuíssima duração da história “quase imóvel”, que conduz à noção de ausência de mudanças. Ao mesmo tempo que privilegia a permanência em relação à mudança, a "Nova" História volta-se para o passado, esquece o presente e fecha os olhos para o futuro.

            - A "Nova" História abandonou qualquer visão de totalidade - mesmo que fosse a de justaposição mecânica dos Annales - passando a cultuar a fragmentação do real.

            - Em nome do combate ao “determinismo econômico” de “cunho marxista”, a "Nova" História erigiu as “mentalités” como as verdadeiras infra-estruturas determinantes do social ou, quando não chegou a tanto, proclamou ao menos a sua autonomia em relação às estruturas sociais e econômicas globais. Aprofundando o afastamento das causalidades econômicas e sociais, que os Annales já haviam iniciado.

            - Seu “retorno à política” - rompendo com a anterior orientação dos Annales - tem muito mais a ver com o combate às “determinações econômicas e sociais” e com um voltar-se à temática do “micro-poder”, do que com a história “macro-política”. No fundo, persiste a “despolitização” da história, iniciada pelos Annales.

            - Ao questionar a existência de leis históricas e do próprio processo histórico, ao negar a objetividade do conhecimento histórico e a existência de verdade histórica, a "Nova" História rompeu com a visão da história como ciência, indo muito além das vacilações que os Annales já haviam manifestado neste terreno.

Conclusão

                        É inegável a existência de uma continuidade, em diversos aspectos e “tendências”, entre os Annales e a "Nova" História. Mais do que isso, os Annales já trazem latentes muitos dos gérmens de seu ulterior desenvolvimento para a "Nova" História. Mas, também é evidente a existência de uma profunda ruptura entre ambas - de caráter involutivo. Como diz Ciro Flamarion Cardoso, a "Nova" História é “uma corrente retrógrada sob aparências de novidade e ousadia”. (CARDOSO, 1988, p. 94.)

                        É a história “do jeito que as elites gostam”, rebento do pós-modernismo. Reflexo da falta de perspectiva de uma burguesia decrépita - mas ainda viva - que teme o futuro, não se empolga com o presente e refugia-se no passado. Expressão das desilusões de setores da intelectualidade que, diante das dificuldades e retrocessos da luta social, desertaram:

“A desconstrução do real que hoje se opera, parece fundamentalmente ligada ao período atual: o das ilusões perdidas. No momento que o vento da história soprava para construir uma sociedade nova, ou seja, nos séculos XVIII e na metade do século XIX, os pensadores buscavam o sentido do futuro humano e inscreviam o presente na lógica racional. De Kant a Marx, sem esquecer Hegel, temos a compreensão dos fundamentos das batalhas em curso pela liberdade. Ao contrário, quando as resistências às mudanças triunfam, no momento em que as esperanças são frustradas, em que a desilusão se enraíza, assiste-se à recusa da racionalização global do real. Já que o real não realiza as esperanças, ele não pode ser racional. A história perde, então, todo sentido, fragmenta-se em múltiplos segmentos.” (DOSSE, 1994, p. 192.)

“Na falta de um presente que entusiasme e perante um futuro inquietante, subsiste o passado, lugar de investimento de uma identidade imaginária [...] que perdemos para sempre. Essa busca torna-se mais e mais individual, mais local, na falta de um destino coletivo mobilizador. Todos abandonam os tempos extraordinários em troca da memória do cotidiano das pessoas comuns.” (DOSSE, 1994, p. 14.)

“A história muda então de função: ciência das transformações, das mudanças, ela se torna especialidade das inércias, das sociedades imóveis, lição de coisas para prevenirmo-nos das veleidades das mudanças ao nutrir-nos com a vaga nostalgia daquilo que perdemos.” (DOSSE, 1994, p. 221.)

                        Tudo isso não significa que a "Nova" História seja estéril ou não tenha qualquer contribuição para a ciência histórica. Seria uma maneira simplista de tratar a questão. Primeiro, porque, ao ser uma escola extremamente heterogênea, possui no seu seio as mais variadas orientações teóricas. Segundo, porque mesmo historiadores com uma visão incorreta podem contribuir para o avanço do conhecimento histórico em estudos concretos. Lembremos Hegel que, apesar do seu idealismo, deu contribuições inestimáveis ao desenvolvimento da dialética. Devemos fazer uma análise rigorosa - não apriorística - que resgate o que há de racional e científico em sua produção, acompanhada da crítica implacável a seus equívocos teóricos e a seu substrato ideológico reacionário.

RFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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